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EUROPA - Irlanda preparada para protagonismo na nova ‘velha’ UE
Qui, 04 de Maio de 2017 19:30

Sharon Lennon, cônsul da Irlanda, e João Gomes Cravinho, e...

(São Paulo, BR Press) - Autoridades da União Europeia se reuniram nesta quinta (04/05), na Universidade de São Paulo, para o evento The New Europe, um seminário dentro da programação da Semana da Europa, uma série da atividades que celebram os 60 anos do bloco, fazem um balanço de suas conquistas e discutem seus desafios nestes tempos de Brexit (a saída do Reino Unido da UE) e ascensão do populismo nacionalista anti-imigração.

Numa demonstração do protagonismo que a Irlanda vem conquistando no bloco e que tende a aumentar exponencialmente com o país se tornando o único de língua inglesa de seus 27 membros após o divórcio do Reino Unido, em 2019, as considerações da cônsul irlandesa Sharon Lennon foram o destaque do painel A Dimensão Cultural e Econômica da União Europeia.

Empoderamento

“Eu não estaria sentada à esta mesa se meu país não tivesse se unido à UE. Entre os ganhos socioeconômicos que tivemos, o acesso à educação foi fundamental para minha geração”, diz a irlandesa de 35 anos, criada numa família de fazendeiros e graduada em Ciências Sociais e Política Comparada com mestrado em Política, Relações Internacionais com foco na relação entre Irlanda e as Nações Unidas, pela University College Dublin. 

Servindo como diplomata há oito anos no Brasil, Sharon Lennon é parte de uma geração de mulheres preparadas para liderança e governança, sendo a mais perfeita tradução do papel de seu próprio país nas políticas definidas em Bruxelas. Apostando no tom certo entre diplomacia pura, soft power e relatos de experiência pessoal, Lennon aproximou a plateia do “case” da Irlanda na UE de maneira mais envolvente que os representantes de países como Espanha (cônsul Ricardo Martinez Vásquez) e República Tcheca (cônsul Pavla Havrliková), e fugindo do oficialismo do embaixador da União Europeia no Brasil, João Gomes Cravinho – todos presentes no painel.  

Educação

Quando a Irlanda entrou na UE, em 1973, 27.135 pessoas obtiveram grau de escolaridade superior. Em 2015, esse número subiu para 173.649. “É fácil aferir o impacto da entrada da  Irlanda no bloco por meio do nível educacional de nossos cidadãos”, diz a cônsul. Investir em educação foi a condição sine-qua-non para que a Irlanda desse um salto, em pouco mais de dez anos, de um país pobre, agrícola e periférico para uma economia moderna de serviços e um rico ecossistema de inovação, capaz de produzir e atrair talentos e capital, e se tornar um dos países com os melhores índices de qualidade de vida e ambiente para negócios na Europa.  

A modernização da sociedade e a incorporação de um modelo multicultural se deram pelo aumento da circulação de bens e pessoas, proporcionado pela UE e pela globalização. “Avançamos bastante em questões de gênero também”, ressalta Sharon Lennon – ela mesma um produto deste avanço. “Os padrões sociais melhoraram com o acesso à educação e o aumento de empregos qualificados. A agricultura deu um salto gigantesco em standards para os grandes e também pequenos produtores”.

Brexit 

O rugido do Tigre Celta só foi silenciado por um breve período após à crise mundial de 2008. Novamente em pouco tempo, a Irlanda se reergueu e se segue ascendendo – agora sob a perspectiva de ser a única fronteira física da UE com o Reino Unido através da Irlanda do Norte (território britânico) – um dos pontos nevrálgicos das negociações do Brexit e dos mais sensíveis para a Irlanda. “Os desafios são imensos, mas nada que nos assuste tanto dado o histórico de tensões que Irlanda e Reino Unido enfrentaram e resolveram  ao longo de seu relacionamento milenar”, ressalta Lennon.

A diplomata se refere às lutas pela independência do Reino Unido, a divisão da ilha nos anos 20 e o conflito por conta do inconformismo por parte de grupos nacionalistas, como o Exército Republicano Irlandês, com a anexação da Irlanda do Norte, que levou a um sangrento conflito de 30 anos (os chamados Troubles), cujas negociações de cessar fogo culminaram no fim das fronteiras físicas entre as duas Irlandas com o Good Friday Agreement, em 1998, que teve a UE como importante mediador. 

“É esta mesma União Europeia, que tem, sim, diversos problemas e desafios como o combate às desigualdades, a crise dos refugiados, as questões de segurança, a universalização do bem estar social e da mobilidade, é que nos ajudará a negociar os melhores termos para o Brexit”, acredita Lennon. 

Só para se ter uma ideia das questões a serem enfrentadas, cerca de 30 mil pessoas cruzam a fronteira entre a Irlanda e Irlanda do Norte e vice-versa diariamente, sem qualquer impedimento ou checagem de passaportes, e, de acordo com estimativas do Banco Central da Irlanda cerca de 40 mil empregos podem ser perdidos com o fim do livre trânsito de cidadãos e mercadorias (o ‘hard’ Brexit). 

Fim do roaming na UE

“Cresci numa situação completamente impensável nos dias de hoje, em que tínhamos soldados com metralhadoras parando a todos durante a viagem de Dublin a Belfast (que é feita em duas horas e durava em média oito horas)”, lembra  Sharon Lennon. 

Atualmente, as únicas manifestações de que se está cruzando a fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte são o aparecimento de placas em inglês e também gaélico, a língua oficial irlandesa, e o sinal das operadoras de celular que mudam. No entanto, este último sinal está prestes a acabar. “O roaming vai acabar em toda a União Europeia a partir de junho de 2017”, anuncia a cônsul. Será o fim de tarifas extras entre os 28 países membros. 

Nos pequenos detalhes e grandes projetos, como os Fundos para Desenvolvimento, Paz e Reconciliação, a UE tem um papel importante para a Irlanda e para toda a ilha na manutenção da prosperidade e intercâmbio cross-border. Isso explica o voto majoritário pelo ‘Remain’ (permanência no bloco) na Irlanda do Norte, no referendo do Brexit. “Quem nasce na Irlanda do Norte ainda pode optar por também ter um passaporte irlandês, que dá acesso à UE”, lembra Sharon Lennon. A procura pelo documento tem sido recorde.

Solidariedade 

Para a diplomata, A Grande Fome (período traumático da história da Irlanda, quando a falta de comida e quantidade de mortes por doenças e inanição levou a uma emigração em massa entre 1845 e 1852, quando a população do país caiu pela metade), teve num efeito solidário na questão atual dos refugiados. ]

“Somos um país aberto”, assegura. “Mas também somos críticos construtivos da UE, respeitando a soberania da cada membro. Com o Brexit estamos tendo um protagonismo nas negociações por razões óbvias relacionadas a vínculos históricos e culturais, e por acreditar que somos mais fortes unidos, seja em nossa ilha, seja com todo o continente”, finaliza. 

(Juliana Resende/BR Press) 

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