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SÍRIA - Ataque de Trump pode mudar política no Oriente Médio e no mundo
Sáb, 08 de Abril de 2017 16:31

Pai enterra filha morta em ataque com gás na Síria. Foto: ...

(Londres, BR Press) - Ao atacar unilateralmente uma base militar na Síria na madrugada desta sexta-feira (07/04), o presidente americano Donald Trump dá uma guinada radical em sua política externa, que pode provocar grandes mudanças na geopolítica mundial. 

Como candidato, Donald Trump condenou a intervenção de seu país na Síria e disse, quando chegou à Casa Branca, que iria trabalhar com o Kremlin na luta conjunta contra o Estado Islâmico, no Iraque e na Síria. Trump se contradiz bombardeando o governo sírio direta e unilateralmente, e afronta a ONU. 

‘Coisas mudaram’

O argumento de Trump é que as coisas mudaram desde que houve o massacre de civis com gases mortais, cuja autoria é atribuída às forças leais ao presidente sírio  Bashar Al-Assad, embora ele negue.

O ataque americano foi focado na base aérea de Shayrat, perto de Homs, a terceira cidade da Síria, perto da qual as mortes ocorreram devido a ataques com substâncias tóxicas proibidas pela Convenção Mundial de Armas Bioquímicas.

No momento da redação deste texto, os navios de guerra americanos Ross e Porter teriam lançado 59 mísseis Tomahawk, dos quais cerca de 36 teriam atingidos alvos não militares, segundo autoridades russas que apoiam Assad no conflito sírio. Até agora, não se sabe ao certo o número de vítimas, mas a agência Reuters e o jornal britânico The Guardian citam pelo menos nove civis mortos, sendo quatro crianças.

Hillary pró-ataque

Hillary Clinton, ex-secretária de Estado de Obama e candidata democrata derrotada por Trump, apoiou a ação do Pentágono e defendeu mais ataques a bases de Assad, admitindo que o governo Obama deveria ter sido mais energético contra o governo sírio. Essa postura – Clinton a favor e Trump contra intervenções militares na Síria e outros países – foi uma das grandes diferenças entre os candidatos durante a campanha eleitoral.

Embora tenha sido criticado pela Rússia como uma “afronta à soberania síria”, é curioso notar que o ataque de Trump aconteceu também após o atentado no metrô de São Petersburgo, no começo desta semana e que deixou 50 vítimas, incluindo cerca de 14 mortos. A Síria é o único país cujo governo a Rússia apoia militarmente. 

O ataque de Trump a Damasco também pode ser interpretado como um aviso à Coreia do Norte de que, caso a China, cujo presidente Xi Jinping está visitando os EUA no momento,  não seja  capaz de subjugar Kim Jong-un, Washington não terá escrúpulos em fazê-lo sozinho. 

Um ataque contra Pyongyang para eliminar seu arsenal nuclear teria consequências imprevisíveis, já que a Coreia do Norte tem armas de longo alcance, podendo atingir Seul, Japão ou as bases dos EUA em Okinawa e Guam. Pequim não parece querer cutucar a Coreia do Norte. 

Moscou-Teerã-Damasco

Não por acaso o primeiro-ministro israelense, Benjamín Netanyahu aplaudiu o ataque de Trump dizendo que é um sinal contra Damasco, Teerã e Pyongyang.

O Reino Unido e a oposição militar síria condenaram o ataque dos EUA como uma "violação do direito internacional". 

O fato é que Washington não quer deixar o caminho livre para a aliança Moscou-Teerã-Damasco. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) vai continuar sustentando grupos rebeldes sírios armados e financiados por ela contra o governo Assad. A Turquia, cujo presidente Erdogan está ansioso para ganhar um referendo que lhe dá plenos poderes, vê uma oportunidade para enfraquecer os nacionalistas curdos sírios.

Terror fortalecido

Al Qaeda e EI continuam nesta luta para evitar mais prejuízos e se reagrupar. Enquanto isso, a Síria vê a maioria dos seus 17 milhões de habitantes se transformando em refugiados, enquanto o número de mortes já passou há muito do meio milhão de pessoas. Aleppo, a mais antiga cidade continuamente habitada do mundo e berço de monumentos que são patrimônio histórico da humanidade, está em ruínas.

Até agora, o que se vê é que as intervenções internacionais na Síria são como jogar gasolina no fogo: continuam produzindo rebeliões em toda a região e provocando outros ataques como Londres ou Moscou sofreram nos últimos dias, e Estocolmo há poucas horas atrás.

(Isaac Bigio*/Especial para BR Press)

(*) Isaac Bigio vive em Londres e é pós-graduado em História e Política Econômica, Ensino Político e Administração Pública na América Latina pela London School of Economics. É um dos analistas políticos latino-americanos mais publicados do mundo ibero-americano. Tradução: Angélica Campos/BR Press.

REPRODUÇÃO TOTAL E/OU PARCIAL DESTE CONTEÚDO SOMENTE AUTORIZADA PELA BR PRESS

Tradução Juliana Resende/BR Press com Google Tradutor.