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CINEMA - América em três tempos
Qua, 09 de Novembro de 2016 02:34

Matthew McConaughey é Newt Knight, um desertor sulista da G...

(BR Press) - A presença do diretor Oliver Stone no Brasil – ele foi à pré-estreia de Snowden nesta terça (08/11), em São Paulo – é emblemática nestas eleições presidenciais nos EUA. O diretor de Platoon apoia Lula e Dilma e diz que Washington colaborou com o “golpe”. O Brasil – incluindo cidadãos, políticos e a Petrobras – é citado como um dos alvos da espionagem desenfreada e ilegal sistematicamente realizada pelos órgãos de inteligência americanos. A inconstitucionalidade destas operações é levada mais a sério nos EUA, onde talvez o escândalo da constante devassa às liberdades civis por meio da espionagem de dados, conversas telefônicas e redes sociais denunciada pelo ex-funcionário da National Security Agency (NSA) rebelado Edward Snowden no auge do governo Obama tenha uma pedra no sapato democrata. 

 O partido de Hillary Clinton ficou enrolado com estas questões cibernéticas – vide a divulgação do uso de conta de email privada para tratar de assuntos de estado por Hillary divulgado com alarde pelo Wikileaks, durante a campanha. Vale lembrar que Julian Assange, o fundador do Wikileaks, e Edward Snowden são considerados inimigos públicos número 1 nos EUA e por seus aliados. É uma guerra travada no ciberespaço, onde os cavaleiros defensores das liberdades civis digladiam com o poder, com o claro e pertinente objetivo de penalizar o Partido Democrata.

 Essa foi apenas mais uma das sérias e profundas questões que estas eleições presidenciais americanas trouxeram à tona, apesar da superficialidade e da impopularidade dos candidatos – e do resultado impressionante em favor de Trump. Liberdade e direitos civis – especialmente os das minorias, como negros e latinos, mas também o direito histórico do porte de armas – tiveram papel decisivo no resultado das urnas. Com uma vitória dada como certa pelas pesquisas, Hillary viu com sua derrota, a chance de os EUA terem sua primeira mulher eleita à presidência depois de um negro esvair-se.

Passaporte apocalíptico

Do alto de sua arrogância, Hillary chegou a declarar que ela seria a “última fronteira” do eleitorado “para o apocalipse”. A popularidade de Trump explodiu em meio a declarações racistas, xenófobas e sexistas em entrevistas e campanhas. Com o milionário na presidência representando a hegemonia branca, interiorana e sem diploma universitário, e com um alto potencial de estrago global, agora é torcer para que os EUA sobrevivam com Trump. Ele vem abalar as estruturas, ruir as fundações, erguer muros numa sociedade onde as diferenças, que eram abissais na fundação da maior democracia do mundo, só aumentarem. 

É aí que entram os filmes O Nascimento de Uma Nação (Birth of a Nation, um remake com a visão do negros do filme histórico originalmente realizado como propaganda da Ku Klux Klan), estreando nesta quinta (10/11), sobre a escravidão nos EUA, que inicia-se no século XVII, quando práticas escravistas similares às utilizadas pelos espanhóis e portugueses em colônias na América Latina, e Um Estado de Liberdade (Free State of Jones, estreando no Brasil em 17/11), sobre a participação de escravos libertos na Guerra Civil americana em 1863, com a Proclamação de Emancipação de Abraham Lincoln, realizada durante o conflito. Matthew McConaughey é Newt Knight, um desertor do Sul que lidera uma rebelião armada contra a Confederação.   

É assombroso ver que um dos maiores problemas da sociedade americana e da maior economia do mundo datam da tempos anteriores à Guerra Civil Americana. Os presidentes Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, heróis da guerra contra os britânicos pela independência, compravam, vendiam e empregavam também mão de obra africana escrava. Um Estado de Liberdade mostra claramente que a luta continua e enfrenta muitos outros desafios, muito além da Guerra Civil. Estão ali o claro boicote ao direito de voto dos negros e a polarização entre liberais e conservadores já abissalmente evidentes. Analisando a fundo a história e a formação dos EUA, a eleição de Trump não parece mais tão surpreendente. God bless America.

 

(Juliana Resende/BR Press)


Assista ao trailer de Um Estado de Liberdade: