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REINO UNIDO - Mulheres chacoalham política britânica
Seg, 11 de Julho de 2016 17:34

Deputada Angela Eagle desafia liderança de Jeremy Corbyn co...

(Londres, BR Press) - Theresa May, ex-secretária do Interior britânica e que votou contra o Brexit, venceu a disputa no Partido Conservador pela sucessão de David Cameron, que a nomeou, nesta segunda-feira (11/07), a nova premiê britânica. Cameron deixa o posto já nesta quarta-feira (13/07), quando vai comunicar sua renúncia oficialmente à rainha Elizabeth, no Palácio de Buckingham. Será a segunda vez na história britânica que uma mulher assume o posto, desde Margaret Thatcher (1925-2013). May concorria apenas com outra mulher: a ministra de Energia Andrea Leadsom, que desistiu da candidatura. No oposição, há outra liderança feminina decolando: Angela Eagle lançou formalmente candidatura que desafia o líder Trabalhista Jeremy Corbyn.

Ambas as lideranças femininas em destaque nos dois principais partidos britânicos dividem opiniões internas tanto entre trabalhistas, como entre conservadores. May fez campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia – posição que racha o Partido Conservador –, mas preferiu um tom mais discreto. Já a deputada trabalhista Angela Eagle resolveu bater de frente com o líder Jeremy Corbyn, acreditando que sua "visão para o país” fará a diferença na necessidade de “fazer um Partido Trabalhista forte", anunciou. Sua candidatura surge num momento de extrema fragilidade parlamentar de Corbyn, que, como Eagle, defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia. Mas muitos acham que a participação de Corbyn na campanha foi “too little, too late" – ou seja: fraca. 

O lado escuro da força

Fraqueza e força parecem ser os opostos que se tornaram combustíveis para a queima ou propulsão de políticos no Reino Unido pós-Brexit – um país completamente polarizado e mergulhado na incerteza. May, que já vinha sendo apontada como nome forte ao posto de premiê por veículos como The Observer, que publicou, há dois anos, um perfil seu, permanece irredutível quanto a qualquer possível revisão do resultado do referendo.

“Brexit significa Brexit. A campanha foi travada, o voto foi realizado, a participação dos eleitores foi alta e o público deu o seu veredito. Não deve haver nenhuma tentativa de permanecer na União Europeia, nenhuma tentativa de entrar novamente pela porta dos fundos e nenhum segundo plebiscito. O país votou pela saída da União Europeia e é o dever do governo no Parlamento fazer justamente isso,” disse May, no lançamento de sua candidatura.

Subindo no salto

Houve quem apostasse que a defesa de May pela permanência do Reino Unido na UE que seria um complicador para entrada, pela porta da frente, no no. 10 de Downing Street. Ledo engano. Agora, ela terá de ter o pulso firme para realizar a principal missão do novo primeiro-ministro: justamente, negociar os termos de saída britânica da União Europeia. E isso de salto alto – sem polarizar ainda mais o país e sem descer dele (e sem trocadilho, pois sabe-se que Theresa May adora sapatos e os tablóides ingleses adoram falar deles e mostrá-los como um indicativo importante do humor e das intenções da parlamentar: Scarpin de zebra? Mocassins discretos? Plataformas vermelhas? Botas de verniz acima do joelho? Deus salve a rainha!). 

Não será tarefa fácil – aliás, seus colegas conservadores que fizeram campanha pela saída da UE, como o ex-prefeito de Londres Boris Johnson e o ministro da Justiça, Michael Gove, preferiram deixá-la para outro – ou melhor, outra. May terá de enfrentar outras batalhas nessa tarefa rumo ao fora – sem falar na postura que terá de adotar frente a opositores, inclusive dentro do próprio partido. Num artigo assinado pela deputada trabalhista Yvonne Cooper, no jornal The Guardian, May é descrita como não sendo a pessoa certa para conduzir a ilha em meio às águas turbulentas rumo à saída da UE – e muito menos para unir um país dividido nessa questão (e muitas outras). 

“Respeito seu estilo – ela é inabalável e séria. E, em vez de se importar em ser chamada de ‘uma mulher terrivelmente difícil’ por bases do Partido Conservador, ela parece se orgulhar disso”, escreveu Cooper, que, por 19 anos, acompanha o trabalho de May no Parlamento. Ambas foram eleitas em 1997 e trabalharam juntas em alguns comitês, sendo May oposição a Copper, quando esta foi secretária do Trabalho e Previdência, e sendo Cooper oposição a May durante do mandato dela como secretária do Interior. “Apesar de ser interessante ver somente mulheres nas altas cúpulas da disputa política para o cargo de premiê”, ressalta Cooper, suas ideias e atos deixam a desejar, e May – que é “favorável à justiça mas não à justiça social” – não teria “a força” necessária para competir quando vier o tranco das eleições gerais, em 2020. 

Segundo Cooper, para bater May, o Partido Trabalhista precisa “fazer uma oposição forte e efetiva”. “Precisamos ser tão afiados como ela e oferecer alternativas a cada vacilo que ela certamente terá, a cada vez que ela e seus ministros se esquivarem de oferecer soluções. Precisamos de uma visão otimista para um país dividido – coisa que, sabemos, os conservadores não serão capazes de fazer”.  Seria a colega Angela Eagle essa alternativa? Isso Yvonne Cooper não soube dizer ou não quis mencionar. 

Voando baixo

Angela Eagle é rechaçada pelos sindicatos – os maiores contribuintes do Partido Trabalhista e que formam suas maiores bases –, por suas posições mais alinhadas à direita. Mas ela pode receber o apoio de 20% dos deputados trabalhistas nos parlamentos britânico e europeu, o que totaliza hoje 51 parlamentares, número mínimo para deflagrar uma disputa pela liderança. O Partido Trabalhista – que vive sua maior crise desde 1988 – aprovou por 172 a 40 votos uma moção de desconfiança no líder Jeremy Corbyn. Ou seja, mais de 80% do deputados trabalhistas não confiam mais no líder atual – adorado pelas bases de esquerda.

Com Eagle voando baixo, resta à executiva nacional Trabalhista decidir se Corbyn tem direito ou não de participar de uma nova eleição para a liderança do partido – que também está rachado nesta questão. Uns dizem que sim, outros que não. 

Keep calm and carry on? Está difícil.

(Juliana Resende*/BR Press; colaborou Geraldo Cantarino**, Especial para BR Press)

(*) Juliana Resende é jornalista formada em Comunicação Social pela PUC-SP e pós-graduada em Conflitos e Processos de Paz, pela University of Ulster (Reino Unido), é autora do livro-reportagem Operação Rio – Relatos de Uma Guerra Brasileira (Scrita, 1995), trabalhou na agência Folhapress, nos jornais Folha de S. Paulo, Folha da Tarde, Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo, além das revistas Veja São Paulo e Trip, antes de fundar a agência BR Press, com sede em São Paulo e satellite office em Londres – cidades entre as quais se divide. Portifolio aqui.

(*)  Geraldo Cantarino vive na Inglaterra há 20 anos, é jornalista e autor de quatro livros publicados pela Mauad Editora: 1964 – A Revolução para inglês ver, Uma ilha chamada Brasil, Segredos da propaganda anticomunista e A ditadura que o inglês viu. Com Mestrado pelo Goldsmiths College, faz, atualmente, Doutorado no Brazil Institute do King's College London. É colaborador da BR Press em Londres.

REPRODUÇÃO TOTAL E/OU PARCIAL DESTE CONTEÚDO SOMENTE AUTORIZADA PELA BR PRESS.