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REINO UNIDO - Um país em crise de líderes políticos
Qui, 30 de Junho de 2016 21:02

Michael Gove, lançou-se candidato à frente do seu companhe...

(Londres, BR Press) - Procura-se novos líderes. O plebiscito pela saída da União Europeia mergulhou o Reino Unido na maior crise de liderança política da história recente do país. O resultado imprevisto do Brexit (saída britânica da UE) sacudiu Westminster e desencadeou uma acirrada disputa pela liderança dos dois principais partidos britânicos: Conservador e Trabalhista.

Foi um dia de surpresas e reviravoltas na disputa pelo cargo de líder do Partido Conservador. Com a renúncia do primeiro-ministro, David Cameron, após o resultado do plebiscito, os deputados interessados em concorrer à vaga de líder tinham que apresentar suas candidaturas até o meio-dia de quinta-feira (30).

 Vale tudo

Numa jogada inesperada, o ministro da Justiça, Michael Gove, lançou-se candidato à frente do seu companheiro de campanha do Brexit, Boris Johnson. O ex-prefeito de Londres era o político mais cotado, até então, para assumir o governo. “Uma facada pelas costas, pela frente e pelo lado”, avaliou um comentarista político da BBC.

Gove e Johnson, correligionários há décadas, apareceram lado a lado nos últimos três meses defendendo com fervor a saída do Reino Unido da União Europeia. Tudo apontava para que Gove viesse a ser o coordenador de campanha de Johnson. Entretanto, o ministro da Justiça partiu para o vale tudo de olho no número 10 da Downing Street, sede do governo britânico.

Vale lembrar que, no sistema parlamentarista inglês, o líder do partido com o maior número de deputados eleitos torna-se o primeiro-ministro. Em caso de  renúncia ou incapacidade de prosseguir no cargo, é substituído por um novo líder até as próximas eleições – que, no caso, estão previstas para 2020.

Bye Boris

Pouco antes de encerrar o prazo para as candidaturas, Boris Johnson causou outra grande surpresa ao anunciar que está fora da corrida pela liderança do partido. Após descrever a agenda do próximo primeiro-ministro diante de organizações supranacionais, ele chocou a plateia de deputados e jornalistas: “Devo dizer, meus amigos, a vocês que aguardam fielmente a parte mais importante deste discurso, que após consultar meus colegas, e em face das circunstâncias no Parlamento, eu concluí que essa pessoa não pode ser eu.”  

  A decisão não caiu nada bem e muitos já falam que ela talvez tenha selado o fim da carreira política de Boris Johnson. Lorde Michael Heseltine, figura proeminente nos governos conservadores de Margaret Thatcher e John Major, lançou um duro ataque ao ex-prefeito de Londres: “Ele rachou o partido, criou a pior crise constitucional dos tempos atuais e desvalorizou bilhões da poupança da nação. Ele é como um general que liderou o exército até o confronto das armas, mas, ao ver o campo de batalha, abandonou o campo.”

Theresa May

No meio desse turbilhão, quem desponta como forte candidata é a ministra do Interior, Theresa May. Defensora de temas polêmicos, como a saída do Reino Unido da convenção europeia de direitos humanos, May fez campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia, mas preferiu um tom mais discreto. Isso cria um complicador para a sua campanha. A principal missão do novo primeiro-ministro será, justamente, negociar os termos de saída britânica do bloco.

“Brexit significa Brexit. A campanha foi travada, o voto foi realizado, a participação dos eleitores foi alta e o público deu o seu veredito. Não deve haver nenhuma tentativa de permanecer na União Europeia, nenhuma tentativa de entrar novamente pela porta dos fundos e nenhum segundo plebiscito. O país votou pela saída da União Europeia e é o dever do governo no Parlamento fazer justamente isso,” disse May, no lançamento de sua candidatura.

Outros três deputados entraram, também, na disputa: Stephen Crabb, ministro do Trabalho e da Aposentadoria, Andrea Leadsom, ministra da Energia e Liam Fox, ex-ministro da Defesa. Os parlamentares escolherão dois finalistas que serão submetidos à votação dos 150 mil membros do partido. O resultado deve ser anunciado no início de setembro.

Corbyn na pressão

 O líder do Partido Trabalhista e da oposição, Jeremy Corbyn, no comando há menos de um ano, vem resistindo a enormes pressões para renunciar. Corbyn defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia, mas muitos acham que sua participação na campanha foi “too little, too late", muito pouco e tarde demais. 

No início da semana, mais de 50 deputados que compõem o “shadow cabinet”, governo paralelo, renunciaram em protesto a Corbyn. Na quarta-feira (29), o Partido Trabalhista aprovou por 172 a 40 votos uma moção de desconfiança no líder Jeremy Corbyn. Ou seja, mais de 80% do deputados trabalhistas não confiam mais no líder. No entanto, Corbyn, que representa a esquerda do partido, alega que ainda tem o apoio de milhares de membros, movimentos de base e sindicatos.

Em nota à imprensa, Corbyn disse: "Fui democraticamente eleito líder do nosso partido para um novo tipo de política por 60% dos membros do Partido Trabalhista e apoiadores e não vou traí-los com minha renúncia.” Corbyn concluiu dizendo que o voto dos parlamentares não tinha legitimidade constitucional.

No entanto, Jeremy Corbyn pode ter sua liderança desafiada por qualquer deputado que conte com o apoio de 50 parlamentares. A deputada Angela Eagle aparece cotada para lançar o desafio, mas tudo indica que esteja aguardando uma possível renúncia de Corbyn. 

Por tudo isso, a incerteza reina em Westminster.

 

(Geraldo Cantarino*/Especial para BR Press)

(*)  Geraldo Cantarino vive na Inglaterra há 20 anos, é jornalista e autor de quatro livros publicados pela Mauad Editora: 1964 – A Revolução para Inglês Ver, Uma Ilha Chamada Brasil, Segredos da Propaganda Anticomunista e A Ditadura que o Inglês Viu. Com Mestrado pelo Goldsmiths College, faz, atualmente, Doutorado no Brazil Institute do King's College London.

REPRODUÇÃO TOTAL E/OU PARCIAL DESTE CONTEÚDO SOMENTE AUTORIZADO PELA BR PRESS.