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REINO UNIDO - 'Um dia histórico que abalou o mundo'
Seg, 27 de Junho de 2016 23:49

A noite vai passando na Londres pós-Brexit, numa velocidade...

(Londres, BR Press) – A manifestação da vontade popular pela saída do Reino Unido da União Europeia, expressa pelo plebiscito de quinta-feira (23/06), está sendo comparada a um terremoto de grande magnitude. Enquanto ondas sísmicas continuam reverberando pelos quatro cantos, britânicos e europeus tentam entender o impacto político e econômico desse resultado, que pegou todos de surpresa.

O assunto domina o noticiário desde o anúncio da vitória na madrugada de sexta-feira (24/06). De lá para cá, não se fala em outra coisa. “Um dia histórico que abalou o mundo”, estampou o jornal The Guardian na chamada de um suplemento especial com análises e opiniões sobre o adeus à Europa.

Abalos na economia

Nesta segunda-feira (27/06), às sete horas da manhã, o ministro das Finanças, George Osborne, procurou tranquilizar o mercado com uma mensagem de confiança: “Estamos preparados para o inesperado”. Osborne afirmou que o sistema financeiro britânico ajudará o país a amortecer eventuais choques, ao invés de piorar ainda mais a situação. 

O momento, sem dúvida, é de grande incerteza e instabilidade. Duas palavras que não combinam em nada com o mercado financeiro. A libra esterlina teve hoje a pior depreciação em relação ao dólar em 31 anos. Ações de bancos e companhias aéreas foram duramente atingidas. Algumas transações chegaram a ser suspensas, temporariamente, para evitar uma queda ainda maior. Em efeito dominó, a volatilidade também atingiu outros mercados na Europa e Ásia. 

As agências de classificação de risco Standard & Poor's e Fitch rebaixaram a nota do Reino Unido de AAA para AA e AA+ para AA, respectivamente. A avaliação é de que a decisão de deixar a União Europeia terá um impacto negativo na economia, finanças públicas e continuidade política. O país já tinha sofrido, na sexta-feira, um rebaixamento de estável para negativo da agência Moody’s.

Crise no Partido Conservador

No cenário político, a reviravolta não poderia ter sido mais impactante. Após renunciar ao cargo de primeiro-ministro na sexta-feira (24), David Cameron, que fez campanha pela permanência na União Europeia, enfrentou hoje o Parlamento pela primeira vez desde o plebiscito. Ele disse que o governo tem a “responsabilidade fundamental de unir o país”. 

O Partido Conservador, que sempre enfrentou uma divisão interna em relação à Europa, deu início hoje ao processo para escolher o novo líder.  A previsão é a de que o Reino Unido tenha um novo primeiro-ministro até setembro deste ano. No sistema parlamentarista, o partido que elege o maior número de deputados vence as eleições. O líder do partido assume o cargo de primeiro-ministro, mas pode ser substituído durante o mandato. 

O Partido Conservador permanece, então, no poder até as próximas eleições, previstas inicialmente para 2020. No entanto, novas eleições gerais podem ser antecipadas como uma saída para contornar a atual crise.

O ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, uma das principais lideranças da campanha do Brexit (Britain + exit), ou saída britânica, aparece como um dos nomes mais prováveis para substituir Cameron. Outro nome cotado é o da ministra do Interior, Theresa May, considerada mais versada em negociações. 

Crise no Partido Trabalhista

O líder do Partido Trabalhista e da oposição, Jeremy Corbyn, também está em maus lençóis. Em menos de um ano no cargo, enfrentou hoje uma debandada em massa dos deputados de seu partido que formam o “shadow cabinet”, o governo paralelo.  

Corbyn deve receber amanhã um voto de desconfiança em sua liderança, após um grupo de deputados ter apresentado moção pedindo sua renúncia. O líder trabalhista está sendo duramente criticado por não ter se engajado com mais entusiasmo na campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia.

Divórcio

Sejam quem for os próximos líderes, o futuro primeiro-ministro terá a árdua tarefa de negociar os termos da saída do Reino Unido da União Europeia, depois de 43 anos no bloco. Um divórcio complexo e não necessariamente amigável. A saída ainda não foi oficialmente comunicada e Cameron quer deixar essa tarefa para o próximo governo. 

Enquanto isso, outros países membros da União Europeia colocam pressão para que a decisão seja tomada o quanto antes possível. A chanceler alemã Angela Merkel disse hoje que a Alemanha irá respeitar a posição britânica, mas que o Reino Unido não terá tratamento especial. 

David Cameron viaja nesta terça-feira (28/06) para Bruxelas, para explicar aos líderes europeus porque o Reino Unido votou pela saída da União Europeia.

(Geraldo Cantarino*/Especial para BR Press)

(*)  Geraldo Cantarino vive na Inglaterra há 20 anos, é jornalista e autor de quatro livros publicados pela Mauad Editora: 1964 – A Revolução para Inglês Ver, Uma Ilha Chamada Brasil, Segredos da Propaganda Anticomunista e A Ditadura que o Inglês Viu. Com Mestrado pelo Goldsmiths College, faz, atualmente, Doutorado no Brazil Institute do King's College London.

 

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