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HISTÓRIA - Roger Casement conecta Brasil e Irlanda
Sex, 25 de Março de 2016 20:21

Roger Casement serviu à coroa britânica e à independênci...

(São Paulo, BR Press) - Um irlandês cuja trajetória se confunde com a colonização da África, a exploração da Amazônia, a independência da Irlanda e a extensão dos tentáculos do Império Britânico mundo afora. Assim é Roger Casement (1864-1916), diplomata, revolucionário e humanista, cujo centenário de morte está sendo celebrado este ano junto com os 100 anos do Easter Rising, ou Levante da Páscoa, rebelião histórica na Irlanda pela independência do Reino Unido – evento do qual ele participou, após servir como consul britânico em vários países.
   
    Há cem anos, na Sexta-feira Santa, Casement foi acusado de traição e capturado pelas tropas britânicas no condado irlandês de Kerry, onde havia desembarcado do submarino alemão U-19, depois de negociar a entrega de um suprimento de armas para os rebeldes irlandeses vindo da Alemanha. O suprimento bélico nunca chegou. Mas Casement foi levado para a prisão de Pentonville, na Inglaterra, onde foi enforcado em agosto de 1916.

    Sua história de contradições e suas denúncias dos horrores perpetrados pelos colonizadores belgas no Congo contra os negros e depois pela Peruvian Amazon Company, empresa financiada pela bolsa de Londres e operada por gestores peruanos brancos, contra os índios na bacia do rio Putumayo, na Amazônia peruana, serão tema de um documentário, já em fase de produção, dirigido pelo cineasta manauara Aurélio Michiles. “Fiquei fascinado por Casement desde que o conheci nas pesquisa para um outro filme, O Cineasta da Selva”, diz Michiles, convidado a falar do novo projeto no seminário Roger Casement e o Centenário de 1916, promovido esta semana na Universidade de São Paulo. pela Cátedra de Estudos Irlandeses W.B. Yeats. 

Ciclo da borracha

    O documentário terá como base, entre outros registros, a primeira edição em português do livro Diário da Amazônia de Roger Casement (Edusp, 472 págs., R$ 56,00), editado pelo historiador irlandês Angus Mitchell e organizado pelas professoras Laura P. Z. Izarra, coordenadora da Cátedra de Estudos Irlandeses W. B. Yeats,  e Mariana Bolfarine, professora doutora do Instituto Federal de São Paulo..  No ápice do ciclo da borracha, Casement – então cônsul-geral britânico no Brasil – fez duas viagens à região do alto Amazonas, em 1910 e 1911, para investigar denúncias de violência e escravidão cometidas contra indígenas brasileiros, peruanos e colombianos.

    Casement registrou e tornou públicas as atrocidades sofridas pelos nativos, quase sempre silenciadas pelos interesses políticos e econômicos, o que acelerou o fim do mercado de extração de borracha. Fonte primária de pesquisa, Diário da Amazônia de Roger Casement é considerado uma defesa da contra-história da cultura ameríndia. O relato evidencia o legado de seu autor para o Brasil e para o mundo, com sua luta pioneira pelos direitos humanos – ainda que cheia de contradições. Norte-irlandês, o diplomata foi batizado na Igreja Católica mas criado como protestante. Durante os anos em que serviu como diplomata britânico, Casement chegou a ser condecorado pelas denúncias sistêmicas de maus tratos aos negr, e recebeu a comenda de Sir, por conta dos serviços prestados à coroa britânica.

Virando a casaca

    Entretanto, a uma certa altura de sua vida, Casement passou a simpatizar com a cauda irlandesa e a lutar pelo direito de auto-determinação da Irlanda em se tornar uma República independente do Reino Unido, do qual era colônia. Casement  se tornou membro da Liga Gaélica e, quando deixou o serviço consular, em 1911, se envolveu na fundação dos Voluntários Irlandeses, que pretendiam o rompimento total da Irlanda com o Império Britânico. Casement foi um dos encarregados de  buscar apoio político nos EUA e Europa continental, armas e oficiais para uma insurreição armada.

    O plano deu muito errado – a Irlanda só conquistaria sua independência, ainda que parcial (pois foi divida entre a República ao sul, e a Irlanda do Norte, que permaneceu anexada pelo Reino Unido), em 1921. Depois de condenado por traição e executado,pelos ingleses, Roger Casement teve seu trabalho como defensor e precursor dos direitos humanos desqualificado em grande parte devido a acusações de sodomia e homossexualismo.

Paralelos amazônicos

    O fato é que nas andanças pela Amazônia, outra figura que se confunde com a história do cinema no Brasil, o cinegrafista português Silvino Santos – personagem-tema do filme O Cineasta da Selva, de Michiles – chegou a encontrar Roger Casement e mencioná-lo como uma autoridade em alguns registros. Só que enquanto Silvino trabalhava para empresários da borracha, registrando o "lado bom" da exploração, Casement denunciava abusos sistêmicos dos colonizadores.  E é esse o viés da biografia de Casement que Michiles pretende retratar no documentário.

    O roteiro está no segundo tratamento e o filme na fase de captação de recursos e co-produtores na Irlanda. Segundo Michiles, sua fascinação por Casement só aumentou depois que ele visitou a Irlanda, a convite do governo do país, acompanhado pelo historiador Angus Mitchell, autor de outros livros sobre o mitológico Casement, incluindo 16 Lives, no qual ele cita um cronista da Guerra da Independência irlandesa, Shaw Desmond: "Olhe bem para este homem, porque ele carrega dentro dele toda a história da Irlanda". Além da saga irlandesa, Roger Casement ajuda a entender também as mazelas do Brasil enquanto colônia escravocrata e a democracia em transe de hoje, num paralelo com o Levante de Páscoa – mesmo 100 anos depois.

(Juliana Resende/BR Press)

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Leia reportagem sobre o filme O Cineasta da Selva, também Juliana Resende, no jornal A Crítica.