Acesse!


BRPRESS NO TWITTER

LONDON CALLING - Ai Weiwei versus Xi Jinping
Sex, 23 de Outubro de 2015 09:18

Ai Weiwei: artista chinês desafia o regime em maior retrosp...

(Londres, BR Press) - Dois chineses que no mínimo se estranham varreram Londres neste outono europeu: o artista plástico chinês Ai Weiwei e o presidente da China, Xi Jinping. Um não encontrou com o outro (era só que faltava!) mas vale o paralelo entre ambos.

    Weiwei ocupa a Royal Academy of Arts com uma exposição monumental  – a maior retrospectiva de sua carreira já realizada no Reino Unido, embora ele seja um dos principais nomes da arte contemporânea. Xi Jinping foi recebido com pompa, circunstância e protestos – contra a ditadura chinesa que cerceia a liberdade de opositores (como Weiwei), que ocupa o Tibete e que governa Hong Kong, ex-colônia britânica, com a mão cada vez mais pesada.

    Mas a corte britânica – da Rainha ao premiê David Cameron, passando pela Duquesa de Cambridge Kate Middleton (de vestido vermelho, a cor oficial da recepção e banquete em Buckingham, não por acaso também da bandeira chinesa) com o príncipe William à tiracolo (Charles se recusou a comparecer, por questões políticas) – curvou-se ao gigante do mercado global como um leão (sim, porque esse é o símbolo do império onde o sol nunca se põe) de circo.

    Até Jeremy Corbyn, o líder trabalhista darling da galera mais prafrentex, se encontrou com Jinping. Mas o mais bizarro foi o fato de os assessores do governo chinês terem tampado com tapumes a visão que o presidente pudesse ter dos manifestantes contrários à sua presença. Só que os tapumes acabaram isolando os manifestantes e a imprensa internacional num único, digamos, ambiente. Ou seja: o que o mundo viu Xi fingiu que não viu.

Negócio da China

    Outra bizarrice foi a embaixada da China no Reino Unido ter realizado uma farta distribuição de bandeirolas, camisetas e faixas com frases de apoio e amor à China, que muitos dos presentes portavam. O jornal The Guardian flagrou caixas e mais caixas de encomendas diplomáticas contendo o material para saudar o presidente chinês – um truque que os brasileiros conhecem tão bem em época de campanha eleitoral.

    Micos à parte, o fato é que cerca de 30 bilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 183 bilhões) em acordos bilaterais estão em jogo com a visita – incluindo a construção da nova planta nuclear de Hinkley Point, a qual Corbyn é radicalmente contra. E por falar em radicalmente contra, seria lindo que Jinping desse um pulo na exposição de Ai Weiwei – extremamente política e escancaradamente crítica à maneira como o partidão chinês vem conduzindo o estado (literalmente) das coisas.

Liberdade é questionar

    Weiwei é o maior e mais ressonante oponente do regime chinês com sua arte que, conforme visto na RA, questiona a autenticidade dos valores convencionais na China atual – como se eles fossem parte das quinquilharias mil que o país exporta para o mundo. “Liberdade é ter o direito de questionar tudo”, diz uma das inscrições do artista na mostra, que foi concebida em apenas 11 meses com a participação do próprio, mesmo impedido de deixar a China até julho deste ano, quando teve seu passaporte devolvido pelas autoridades chinesas, então confiscado desde 2011, quando o artista foi detido em Pequim por 81 dias.

    Weiwei veio a Londres para a montagem da exposição na RA – que o elegeu Membro Honorário no mesmo ano em que foi preso na China, para apoiá-lo – e causou, é claro. De cara, o visitante é recebido já no atrium exterior da Burlington House, onde fica o imponente prédio da academia, por árvores de sete metros montadas com toras de madeira como que gigantescos Pinóquios anunciando que o mundo orgânico virou arte na era pós-industrial. Trata-se do maior projeto de crowdfunding realizado na Europa para uma obra de arte, tendo arrecadado £124 mil (cerca de R$ 755 mil) via Kickstarter.

Destruição X construção

    Mestre da subversão, Weiwei não hesita em pintar o logo da Coca-Cola em vasos neolíticos da dinastia Oing, mesclando o velho e o novo com ácida ironia – algo esperado no trabalho desse intrépido e insurgente artista chinês, para quem Duchamp “é o maior, senão o único” influenciador.

    Pedra eterna no sapato de Mao e todos os guardiões da Revolução Comunista, Weiwei usa a demolição como linguagem central enquanto Xi Jinping viaja o mundo vendendo uma China em constante construção (reforma nem pensar!). 

    Em Remains (2015, obra mais nova da expo) Weiwei reproduz ossos de escravos escavados num campo de trabalho criado por Mao. Na instalação Straight (iniciada em 2008, quando ele deixou os EUA e voltou para a China), o artista reúne barras feitas com 90 toneladas de ferro usadas na reconstrução dos prédios que desabaram durante o terremoto de Sichuan, em 2008, e cujas vítimas (a maioria crianças de uma escola) soterradas não tiveram sua identidade revelada – até ele listar todos os seus nomes na obra.

    Para Ai Weiwei, ‘a arte sempre vence”. Xi Jinping e a Cool Britannia preferem pagar para ver.

FYI - London Calling começou como um boletim diário durante as Olimpíadas de Londres 2012, para a BandNews FM. Virou coluna da jornalista Juliana Resende, com um pé lá e outro cá. Ouça aqui os boletins London Calling.

Leia mais sobre Ai Wei Wei aqui e aqui.