Acesse!


BRPRESS NO TWITTER

DENGUE - Quem é o dengoso aqui?
Ter, 05 de Maio de 2015 19:22

Dengue: esse agente etiológicoé um porco energúmeno maled...

(São Paulo, BR Press)  - Fabi, cadê o termômetro?

Ela me olhou meio espantada:

– Bom dia primeiro, né?
- Bom dia! – sorri, catando o aparelho de cima da mesa.

– Eu me conheço. Essa moleza não é normal. Trinta e oito no mínimo, quer ver?

- Fica aprontando e depois quer colocar a culpa numa febre? Tá dengoso?

- Olha a conversa... – mostrador apitou. 35,8 graus.

– Que peste.

- Tô vendo, super se conhece, hein? -  ela resmungou tirando os olhos da tela do computador.

    Voltei frustrado pro consultório. Estava me sentindo estranho, mas se não era febre, o que era?  

    Voltei na sala da enferemira à tarde. Nem entrei e ela estendeu o termômetro com um sorriso que eu jurei ser puro sarcasmo. 36,6 graus.

    “Ok”, pensei, “Deve ser bobagem mesmo. Um vento perdido de hipocondria ou qualquer outra frescura que entrou pela janela”.

    Atendi meus pacientes, mas preferi não ir malhar à noite. Acho que uma virose tá me cercando, “Melhor guardar energias”, expliquei pelo Whats.

    Botei um filme qualquer pra rolar, deitei no sofá da sala e relaxei.

    Acordei nos créditos com um tipo de frente fria brotando da medula e se espalhando em gelo e dor por todos os músculos. Deduzi que uma xícara de chá quente ajudaria a diminuir o mal estar.

    Então, numa explosão de determinação e vigor másculo para levantar de um só golpe, fiz o esforço, mas tudo que se mexeu foi o braço direito. O resto se recusou.

    Talvez anos de treinamento na adolescência tenham deixado o braço direito mais resiliente, vai saber.

Somando a estatísticas

    Na verdade, estava me unindo à estatística das dezenas de pacientes que atendi desde o verão. Agora era minha vez de degustar dias de dengue.

     Consegui uma carona caridosa na quinta-feira de manhã para ir colher sangue. Não foi fácil sair da cama. Acompanhado do vírus, qualquer movimento de erguer-se de qualquer lugar requer uma coreografia bem sincronizada de pelo menos seis movimentos diferentes.

    Aguardem pelo vídeo.

    Na sexta-feira, após 48h curtindo calafrios debaixo do edredom, comecei a pensar que uma nova edição da bíblia deveria adicionar a dengue como uma das pragas do Egito ou pelo menos mencionar que algum cavaleiro do apocalipse trazia a moléstia em sua algibeira.

    Recados e mensagens perguntavam “Você está bem?”. Adotei a resposta padrão: “Devo estar ótimo onde quer que eu esteja, porque dissociei do corpo de ontem para hoje”.  

    Dois passos passaram a ser uma maratona. O mundo sacudia três vezes mais rápido, tornando o equilíbrio cada vez mais precário. Um sino medieval foi instalado na minha cabeça, junto com um menino que atira pedras com um estilingue detrás dos meus olhos.  

Rastejante em jejum

    Abdiquei de minha condição bípede e passei a tomar banho sentado no chão do box. Considerei até pegar uma almofada e andar sentado pela casa. Ou me enrolar em um cobertor e ir me arrastando pelos cômodos como uma minhoca.

    Comida nem pensar: só o cheiro de gelo já bastava para me dar ânsia de vômitos.  

    No sábado, decidi pendurar um pouco minha tão querida quanto ridícula capa de super-homem e aceitei ajuda. Amigos vieram, deram apoio moral, fraternal, espiritual, frugal, nutricional.

    Ganhei puxão de orelha por ser tão teimoso e rabugento, mas também ganhei uma sopa deliciosa, 1.000 mL de soro na veia, uma antena improvisada para TV (não assisto à TV em casa, só filmes), envelopes de paracetamol e monitorização à distância.

    No domingo, na hora do almoço, a febre passou de uma vez. Foi algum alívio, mas todos os outros 29 sintomas continuavam ali pra dar uma força. Então, havia um caminho ainda.

    No final da tarde, consegui ir escoltado até o calçadão para ver um amigo jogar vôlei. Tomei meus primeiros dois copos inteiros de líquido na sequência na forma de água de coco e fiz uma refeição sólida espontânea: meia porção de batatas fritas.  

    No saldo final, três quilos foram-se. Pelo menos isso foi positivo. E ganhei uma empatia renovada dos e pelos meus companheiros de luta. Esse agente etiológico (microorganismo que causa a doença) é um porco energúmeno maledito sem asas. O curso clínico de alguns dias pode ser resumido por uma palavra: devastação.

    E a dengue, de dengosa, tem absolutamente nada.

(Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press)

(*) Médico e escritor, Dr. Alessando Loiola escreve semanalmente sobre temas pertinentes, na saúde e na doença. Palestrante, é autor de três livros e dezenas de artigos científicos.