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BRASIL - Crise hídrica debatida em Londres
Qua, 22 de Abril de 2015 13:18

Nixiwaka Yawanawa, do Acre a Londres: presença marcante no ...

(Londres, BR Press) - A falta de água em São Paulo e sua relação com o desmatamento da Amazônia pode estar a milhares de quilômetros de distância e da realidade da capital britânica (pelo menos fisicamente). Mas foi lá que ocontundente painel Brazil’s Water Crisis: A Case of Rain or Rainforests?, reunindo especialistas estrangeiros sobre o tema, o jornalista brasileiro Rogério Simões e o líder indígena Nixiwaka Yawanawa, da tribo Yawanawa, do Acre, levou a uma acalorada discussão, na noite de 21/04.

    Partindo da pergunta “de quem é a culpa?” – da natureza, da incompetência política, do desmantamento, da economia mundial? –  por chegar num ponto de falta e racionamento de água em uma das maiores cidades do mundo, em um país que abriga a Floresta Amazônica e que produz cerca de 12% da água do planeta, o mediador e cientista especialista em florestas tropicais, Andrew Mitchell, teve de pedir objetividade a alguns dos palestrantesdada a complexidade do tema.

    Diretor da Scientific Exploration Society – que promoveu o painel junto ao Frontline Club, associação independente de jornalistas sediada em Londres –, Mitchell demonstrou inabalável clareza de como a atividade indiscriminada do agrobusiness e de empresas globais de exploração de recursos naturais, que investem na Amazônia com financiamentos de bancos públicos e privados de todas as nacionalidades, utilizando dinheiro de praticamente todos os seres humanos economicamente ativos, contribui para drenar os recursos hídricos do Brasil e, quem sabe um dia, do resto do mundo.

    Afiado e ele mesmo profundo conhecedor dos agentes destruidores das ‘rainforests’ e protagonistas das mudanças climáticas – todos listados e ranqueados no ótimo site Forest500.org (uma analogia com o ranking Fortune500, da revista Fortune) –, Andrew Mitchell é fundador do Global Canopy Programme, co-fundador da Earthwatch Europe, e conselheiro pessoal do Rainforest Project, do príncipe Charles, entusiasta da sustentabilidade (além de fabricar as melhores geléias orgânicas do Reino Unido, da marc Duchy Originals).

Comida

    “Carne, frango, ovos… Quem comeu alguma destas coisas hoje?”, perguntou Mitchell a uma platei que timidamente começava a levantar as mãos. “Pois saibam que estes animais, sejam eles criados na Tailândia ou China, são alimentados com soja brasileira, cujas plantações invadem a Amazônia, descendo para o sul do Brasil.  A indústria do gado também está destruindo a Amazônia, e quase todos estes negócios são financiados pelo capital estrangeiro – investimentos feitos inclusive por bancos britânicos com dinheiros dos pensionistas”.

    Cientes do círculo vicioso da economia mundial alimentado pela simples razão de que bilhões de pessoas precisam comer, a Floresta Amazônica – o maior pulmão do planeta e corredor gerador de chuvas que irrigam regiões no Brasil e em todo o continente sul-americano – segue sendo devastada a uma velocidade preocupante. Mas esta é a razão para a crise hídrica? A julgar pelos conteúdos ora técnicos, ora estatísticos, ora empíricos derramados pelos panelistas, sim.

Contrastes

    Em um inglês claro e desenvolto, usando um imponente cocar, o índio Yawanawa descreveu com veemência o cenário de alagamento jamais visto na aldeia, apresentado em vídeo. Enquanto falta água para 20 milhões de pessoas em São Paulo, no norte do Brasil, onde vivem cerca de 5% da população brasileira, uma aldeia toda ficou debaixo d’água. Nixiwaka vive em Londres desde 2010, trabalhando para a Survival International, ONG para defesa das populações indígenas.

    “Oportunidades como esta valem o sacrifício de viver uma vida completamente diferente da que vivia na aldeia. Em Londres não posso caçar, e sigo chocado com o mau tempo quase constante”, admitiu Yawanawa, arrancando risos da atônita plateia, iprincipalmente da cientista especialista em mudanças climáticas Friederike Otto, pesquisadora do Environmental Change Institute, da Universidade de Oxford. Ela busca conexões entre eventos climáticos extremos e as mudanças climáticas ocasionadas por fatores externos, como a poluição decorrente da exploração não sustentável de recursos naturais e da ocupação irregular de áreas de proteção ambiental. 

    “É o preço para mostrar ao mundo o que está acontecendo no Brasil – o desmatamento é grande e rápido. Vemos todas estas madeireiras agindo ilegalmente sem constrangimentos e acabando com a nossa terra, da qual tomamos conta desde tempos imemoriais, direito este que está ameaçado pela PEC 215”, denunciou. Trata-se da Proposta de Emenda à Constituição que transfere do Poder Executivo para o Congresso Nacional o poder de demarcar terras indígenas, contra recentes decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

Corrupção

    Choveram perguntas indignadas da plateia: por que o governo brasileiro permite que madeireiras operem ilegalmente e que políticos ligados ao agronegócio legislem em causa própria? “Esta é uma das razões pelas quais milhares de brasileiros foram às ruas pedir a saída da presidente Dilma e o fim da corrupção. Estive na primeira manifestação e ficou claro a insatisfação com a maneira com que a política vem sendo conduzida”, diz a fotógrafa Sue Cunningham, mentora da fundação Tribes Alive, para proteção das populações indígenas.

    Com o marido Patrick Cunningham, Sue foi premiada pela Royal Geographical Society por sua expedição Heart of Brazil, que levou o casal a percorrer todo o Rio Xingu de barco, visitando 48 aldeias e documentando efeitos da mudança climática e do dramático impacto da atividade econômica irregular na floresta. “Em muitos trechos do rio, a água não é mais potável e isso é muito assustador”, diz. Assustador também, para ela e Patrick, é como o propinoduto da corrupção no país chegou à construção de hidrelétricas como Belo Monte, cujo impacto ambiental é mais do que evidente. “O governo do Brasil está do lado da ilegalidade”, sentenciam.

Sustentabilidade

    Para o jornalista Rogério Simões, ex-diretor da BBC Brasil e ex-editor-executivo da revista Época, enquanto o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro continuar privilegiando a produção e exportação de commodities de maneira não sustentável, crises como a hídrica tendem a se agravar. “Os políticos brasileiros demoram para agir e privilegiam o agronegócio ainda mais neste momento de crise econômica”, ressalta. “É preciso investir em outros setores da economia para um desenvolvimento sustentável. E vale lembrar que 80% da energia do país vem das hidrelétricas – a razão da construção de Belo Monte e de outras usinas na bacia amazônica, porque é lá que a água está”.

    Simões comparou a atitude do governo da Califórnia – que decretou racionamento visando uma economia de 20% quando os reservatórios chegaram a 30% de sua capacidade total – ao de SP, que, para ser reeleito, evitou admitir o racionamento com os reservatórios operando com 7% de sua capacidade. “Represas como a Billings estão sofrendo com a poluição, decorrente de esgotos e de favelas – onde vivem cerca de 12 milhões de brasileiros”, contabiliza o jornalista. “Pela má situação econômica no Brasil, há grande pressão em tirar a floresta do caminho para a produção de carne e grãos para exportação”, explica.

Tsunami de dinheiro

    Andrew Mitchell alerta: “É um tsunami de dinheiro que está destruindo a Floresta Amazônica e nós, que financiamos este capital, podemos e devemos desfinanciá-lo”. Para o cientista-ativista,  “a questão da alimentação da humanidade está intimamente ligada ao desmatamento”. Surgem então outras questões, como: O que faremos para mudar essa lógica perversa? Toda a humanidade deve ser sacrificada por causa da sobrevivência das populações indígenas?

    “Se nós morrermos, vocês vão morrer também – não há futuro no way of life dos brancos, que sempre  nos criaram problemas”, acredita Nixiwaka Yawanawa. “Não há dúvidas de que se continuarmos desmatando nesta velocidade, haverá mudanças climáticas drásticas a médio prazo”, prevê a pesquisadora de Oxford Friederike Otto, que está trabalhando com o Instituto de Meteorologia de São Paulo, estudando a relação das mudanças climáticas e seu impacto na crise hídrica paulista.

    “A umidade gerada pela floresta está sustentando agriculturas em todo o mundo e o alcance de sua influência é maior do que vem sendo divulgado”, diz Peter Bunyard, autor, jornalista,  fundador da revista e portal The Ecologist. Há 50 anos, ele vem estudando o Biotic Pump, uma complicada teoria que busca evidências globais de mudanças climáticas a partir do desmatamento da Floresta Amazônica, que, controversa, seria tema para um outro painel.

(Juliana Resende/BR Press)

Assista a íntegra do painel Brazil’s Water Crisis: A Case of Rain or Rainforests? (em inglês):

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