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QUÊNIA - Fazendo paz no banheiro
Ter, 12 de Março de 2013 00:48

Integrante do grupo de mulheres Vision Sisters, Lydiah Amung...

(Nairóbi, BR Press) - Enquanto se discute a legitimidade do resultado das eleições no Quênia, cujo pleito aconteceu na última segunda-feira (04/03) e que deu, neste sábado (09/03), vitória apertada e questionada a Uhuru Kenyatta, na maior favela da África subsaaariana, Kibera, encravada na capital queniana, Nairóbi, o clima ainda é tenso. Houve ocorrências de apedrejamento esta semana, mas o local foi palco de violência generalizada em 2007, justamente por causa de resultados de eleições considerados roubados. "Mulheres e crianças foram os que mais sofreram", lembra Hamza Ahmed, integrante da ONGL Vision Sisters, formada por mulheres católicas e muçulmanas locais. "E não queremos isso novamente".

    Kenyatta é acusado de crime contra a humanidade por incitar assassinatos e intimidações nos levantes de violência étnica que deixaram, há cinco anos, pelo menos 1.200 mortos e milhares de feridos, desabrigados e deslocados que ainda vivem em campos de refugiados. O presidente será julgado em abril pelo Tribunal Penal Internacional. Foi pensando neste passado sombrio e no que as eleições de 2013 poderiam reservar aos milhares de quenianos que vivem em Kibera, as Vision Sisters construiram e operam o único banheiro da favela. Patrocinado pele ONG Maji na Ufanisi ("Água e Desenvolvimento"),  o projeto atende a cerca de 30 pessoas diariamente, cobrando 10 schillings para adultos e 5 schillings para crianças (o equivakente de 0.5 a 0.10 cents de dólar americano). "Mas não negamos acesso a quem aparce desesperado", diz Hamza Ahmed.

    "Nosso objetivo não é fazer dinheiro, é pelo menos manter o ambiente limpo e pagar água, luz e os que ajudam no dia-a-dia, frisa Ahmed. Além de ser um lugar com água encanada, onde é possível fazer as necessidades fisiológicas – geralmente feitas em um saco e jogadas para longe, daí o nome de "flying toillets" –, o banheiro é um refúgio para onde mulheres e meninas, frequentemente vítimas de abuso sexual, podem fazer sua higiene de maneira segura num lugar como Kibera.

"Sempre tem vigilância quando alguém está usando", ressalta outra Vision Sisters, Lydiah Amunga, atarefada distribuindo pedaços de papel higiênico. Hanza Ahmed concorreu, nestas eleições, a uma cadeira na Makina County Assembly Ward, pelo Unity Party of Kenya, mas não foi eleita. "As pessoas batem em minha porta pedindo dinheiro. Acho que posso ajudá-las mais efetivamente com uma estrutura política", diz ela, atribuindo ao fato de ter 71 anos, ter feio somente o primário e ser de minoria étnica, descendente de sudaneses não ajudou.

HIV

   O projeto também melhora o dia-a-dia e as relações na comunidade. Muitos usam a facilidade para lavar roupas e encher galões de água potável – artigo de extremo luxo em Kibera, onde não há luz elétrica muito menos saneamento básico. O chão de terra batido da imensa favela é, basicamente, um lamaçal de lixo, esgoto e todo tipo de detritos orgânicos. Kibera é um óbvio bolsão de doenças, incluindo o HIV, que mata menos que a malária, com quem o vírus da Aids abocanha 50% do orçamento anual para saúde do Quênia – correspondente a menos de 5% (US$ 3.2 bilhões) do Produto Interno Bruto (cerca de US$ 65 bilhões), divididos em serviços em geral (35%) e a saúde reprodutiva  (15%).

O país tem uma das maiores taxas de crescimento do mundo – cerca de 1 milhão de bebês nascem anualmente, ainda com a epidemia de HIV. São cerca de dois milhões de soroposotivos entre os cerca de 38 milhões de quenianos. "O HIV é um desastre nacional". São palavras do  Dr. Bashir M. Issak, diretor da Divisão de Saúde Reprodutiva do Ministério da Saúde Pública e Sanitária do Quênia.

Pobreza extrema

    No entanto, 50% da população vive com menos de US$ 1/dia. Viver abaixo da linha de pobreza é, de fato, o maior problema do país. Kenyatta não possui programa de governo claro para erradicar a miséria. A vendedora de tomate e milho Rose Cangua, 40 anos, é uma das pessoas sobrevivendo com HIV em condições subhumanas em Kibera. Ela descobriu ser soropositiva há três anos quando o marido morreu de Aids e deixou com ela cinco filhos – o mais novo, de 4, foi infectado.  Ambos tomam antiretrovirais gratuitos, fornecidos pela ONG Médicos Sem Fronteiras (e pagos pelo governo, segundo Dr. Issak), mas não têm acesso a uma refeição todos os dias.

    No Quênia, estima-se que entre 25% e 40% dos soropositivos sejam mulheres entre 20 e 30 anos. Vulneráveis, elas agora têm nas dependências do banheiro das Vision Sisters um local de apoio e orientação, já que lá também está sendo construída o que Janet Mangera, outra integrante da ONG, chama de "rede para vítimas da violência". Hamza Ahmed explica  que os encontros realizados no salão anexo aos toaletes estão abertos a todos, mas recebem mesmo mais mulheres que foram estupradas. "Aconselhamos a elas a irem à polícia, ao hospital e discutimos casos de pessoas que fizeram o mesmo", completa. "É encorajador", acredita Mangera. "Elas agora sabem como buscar seus direitos e recusos. E essa mobilização faz os que pensam em cometer estupros pensarem duas vezes antes".

(*) Juliana Resende e Julienne Gage viajaram ao Quênia a convite do International Reporting Project (IRP).

Assista ao vídeo (em inglês) desta história originalmente veiculado no PRI the World: