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Isaac Bigio*/Especial para BR Press
(Londres, BR Press) - Enquanto o mundo presencia a maior competição por medalhas esportivas que se dá em Londres, na maior e mais comercial cidade síria, Alepo, a competição é por quem produz mais mortos e sangue.
Alepo não é uma cidade qualquer. Compete com Damasco, a capital síria, que também está manchada de vermelho, e com Jericó, centro de tantos conflitos entre hebreus e palestinos, na disputa para saber qual das três ocupa o pódio por ser considerada a cidade continuamente habitada mais antiga da humanidade.
Destruição
Alepo e Damasco valem, por isso, mais do que a soma de todas as medalhas olímpicas de todos os tempos. Mas mesmo assim o mundo deixa que estas joias da arqueologia e da cultura global estejam sendo destruídas, numa competição de quem dispara, bombardeia e massacra mais.
Alepo e Damasco existem antes que os gregos inventassem seus deuses do Olimpo e os homenageassem em seus Jogos. Quando o rei Davi, há três milênios, anexou Alepo e Damasco, ambas já teriam mais de três mil anos de existência. Quando Jesus pregava e se despedia dos mortais na Galileia, sua vizinha cidade de Damasco recém começava a última terceira ou quarta parte de sua vida.
Pra lá de Bagdá
Alepo e Damasco são ainda mais velhas que Bagdá, a capital iraquiana que, assim como o resto da Mesopotânia, foi transformada pelas potências ocidentais em uma zona de massiva destrução em 1991 e 2003.
Já há mais de 200 mil refugiados que deixaram suas cidades, enquanto que os que ali permaneceram não se atrevem a sair às ruas, onde chove não água, mas balas e bombas. Não sabemos quantos tesouros culturais terão sido perdidos para sempre, em ambas as cidades, ao final do conflito.
Há 2/3 de século, a grande sinagoga de Alepo juntamente com sua bíblia (uma das mais antigas que existia) foram queimadas, abrindo caminho para que a etnia mais antiga daquele país – os judeus, que estavam na Síria pelo menos mil anos antes do cristianismo e 1.600 anos antes do Islã - fossem dispersos por todo o globo.
Hoje, os cristãos sírios (que provêm do primeiro reino cristão que existiu e seguem rezando no mesmo idioma aramaico que Jesus falava) vêm sendo vítimas de limpezas étnicas por parte de alguns rebeldes sunitas.
Inferno
E enquanto Alepo é destroçada, os que atualmente têm mais poder que os antigos deuses do Olimpo (que nunca tiveram armas nucleares ou bacteriológicas) deixam ver do alto de seus Olimpos como a Síria – um dos berços da civilização – se afunda no inferno. E mais, vários destes "deuses poderosos" contribuem para isso mandando dinheiro, armas e homens para alimentar esta carnificina.
Durante as Olimpíadas, Vladimir Putin e David Cameron se reuniram não para acabar com o conflito – mas para lembrar que ambos sustentam e apoiam grupos opostos nesta guerra.
(*) Isaac Bigio vive em Londres e é pós-graduado em História e Política Econômica, Ensino Político e Administração Pública na América Latina pela London School of Economics. É um dos analistas políticos latino-americanos mais publicados do mundo. Fale com ele pelo e-mail
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, pelo Twitter @brpress e/ou no Facebook. Tradução: Angélica Campos/BR Press.
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