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CAUSOS - O Palhaço de Selton Mello
Ter, 08 de Novembro de 2011 14:10

(BR Press) - Amigos, 

É difícil dizer o que mais gostei no filme do meu amigo Selton Mello. Se do roteiro, da atuação do elenco extraordinário, da fotografia deslumbrante, da direção de arte, do figurino, da maquiagem ou da trilha sonora espetacular com Altemar Dutra, Nelson Ned e Lindomar Castilho.

Sou completamente suspeito para falar desse tema. Vi a primeira peça de teatro de minha vida num circo-teatro. Minha infância foi povoada de pequenos e grandes picadeiros e até hoje, quando posso, entro num em busca do tempo perdido.

Procuro o Sarrasane, o Garcia, o Guaraciaba... "É hoje, é hoje, é hoje! O circo Ordep..." (Pedro ao contrário). Os bonecões de papel machê, percorrendo as ruas de terra do meu bairro chamando o público para o espetáculo.

Só o chão

Semana passada, na periferia de São Paulo, a caminho do teatro, vi um espaço vazio de terra vermelha e os últimos despojos de um circo que ia embora. O motorista informou que não tiveram público. Um toque melancólico, a síndrome de não ter público é característica do circo e também do teatro.

Uma vez, vi na televisão uma entrevista do grande ator Rubens Correa. A apresentadora perguntou como ia a peça e ele, ao invés de dar uma resposta entusiasmada, vendendo seu peixe, foi sincero e disse: "Vamos mal de público".

"O teatro sempre pareceu um moribundo", dizia Rubens. Quando os atores se encontram e perguntam como esta lá, se referindo à quantidade de público, a resposta, na maioria das vezes, quando é sincera, é igual a que dizem dos moribundos: "Hoje deu uma reagidinha..."

No teatro e na vida

O pavor de não ter público. Deve ser assim também na dança. No cinema. Nos restaurantes. Na vida. Não ter público é não agradar, não fazer sentido. Tem gente que não questiona se a vida faz ou não sentido.Vamos tocando.

Selton tem angústias profundas. E elas estão no filme. O personagem principal, interpretado por ele, sofre enquanto faz o público rir.

Vale a pena ter esperança?

Mal nascemos e já começamos a morrer... Que profissão é essa de distrair as pessoas? Ajudar a humanidade a ir levando.

O circo Esperança de Selton Mello é um espelho da vida. É mais que isso: é a própria vida que segue, com seu dinheiro sujo, traições, injustiças, amor, mesquinharias e muito riso.

"O bom menino não faz xixi na cama"...

"Porque a vida é sonho e os sonhos são sonhos", Selton junta Felinni com Chaplin , Becket com Harold Pinter e Carequinha. Selton quer um ventilador, ele sonha com isso. Um pouco mais de conforto... Mas a vida é cruel, implacável.

Tem a certidão de nascimento, mas falta a carteira de identidade ao palhaço de Selton. Não falta nada no filme.Tá tudo lá. Diversão, ternura, afeto, corrosão.

Um elenco genial onde reinam Moacyr Franco, Jorge Loredo, o genial Zé Bonitinho. Selton deu uma cena linda para ele contar piada e dar um "tostão de sua voz, microfone please, câmera close..." Quem não ama Zé Bonitinho?

Paulo José é o mestre dos atores brasileiros. Quem quer que exerça essa profissão deve se orgulhar de ser contemporâneo de Paulo José.

Gostaria de falar de cada ator, do time perfeito que Selton escolheu entre suas admirações e amizades. Sim, é possível ser profissional e fiel às amizades.

Não é a toa que o circo do Selton se chama Esperança. Ela pode ser o "último porre", mas também é a última que morre. Todos nós, atores e palhaços, temos de agradecer ao Selton por essa belíssima profissão de fé no nosso ofício.

"Viver é muito perigoso". A vida é coisa simples e complicada. Benditos aqueles que nos ajudam a levá-la. Acho que o público gosta dos atores e dos palhaços. Ele aplaudiu a sessão que vi, às nove da noite do Dia de Finados, desse ano da graça de 2011, aqui no Rio de Janeiro.

O Palhaço é uma onda boa que embala o cinema brasileiro.

Não perca! Num cinema perto de você!

(*) Paulo Betti é ator e diretor. Fale com ele pelo email Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , pelo Twitter @brpress e/ou pelo Facebook.