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TUNÍSIA - Povo derruba ditador
Sáb, 15 de Janeiro de 2011 19:23
Rui Martins*/Especial para BR Press

(Genebra, BR Press) - Nunca foi tão verdadeiro aquele slogan "o povo unido derruba a ditadura". O ditador tunisiano Zine Ebidin Ben Ali, depois de 24 anos de poder, após um golpe de Estado no presidente vitalício Habib Ibn Ali Burguiba, foi derrubado na última sexta (14/01) pela força do povo, que vinha exigindo nas ruas, nestas últimas semanas, sua renúncia.

    A revolta popular começou dia 17 de dezembro, quando um camelô, desesperado, se imolou pelo fogo. Durante as agitações, houve outras cinco imolações voluntárias pelo fogo, praticadas por jovens desesperados e  desempregados.

Corrupção e depressão

    Embora a Tunísia tenha sido nestes anos Ben Ali, um muro contra o fundamentalismo islâmico – o que valia o apoio dos ocidentais ao ditador –, era igualmente um ditadura marcada pela corrupção, onde os intelectuais e jornalistas opositores ao regime eram presos,  submetidos à tortura ou obrigados a se exilar, geralmente na França.

    Ben Ali tentou acalmar o povo, pela televisão, prometendo criar empregos, num país onde o desemprego é 13%, e deixar o poder ao fim do seu mandato, em 2014, sem tentar nova prorrogação, mas o povo tunisiano iniciou, ainda na manhã de quinta (13/01), suas manifestações favorecidas por uma convocação de greve geral no país.

    Durante essas duas décadas de ditadura, o medo, a repressão, a delação, o reforço do controle da população por agentes secretos tinham transformado os tunisianos num povo submisso, incapaz de fazer críticas ao seu presidente-ditador. Foi a crise econômica, a corrupção instaurada no governo pela segunda esposa do ditador, favorecendo as famílias de ambos que atearam o estopim.

    A maneira como os populares, desesperados e sem emprego ( muitos deles com diplomas universitários) enfrentavam os policiais e militares mostrou a transformação de um povo cordeiro numa população revoltada, incapaz de ser dominada mesmo com tiros de balas reais, causadores de mais de 60 mortes em números oficiais, que, na realidade, poderão ser mais de centenas.

Caos

    A revolta levou às pilhagens de armazéns, supermercados, lojas e concessionárias de automóveis, como a do genro do ditador, logo depois de anunciada a fuga de Ben Ali. Durante a noite desta sexta (14/01), notícias do sul da Tunísia descreviam num clima de caos, marcado por ataques e pilhagens, temendo-se que a situação social seja difícil de controlar.

    Em Tunis, foi imposto o toque de recolher nesta noite, sob pena de morte.
Ainda na sexta-feira de manhã, um líder da oposição, alertava em Paris quanto à necessidade da formação de um governo provisório, mas temendo já ser tarde, dado o risco de uma guerra civil ou de um novo golpe, impedindo que a Tunísia tenha a possibilidade de conhecer a democracia.

Argélia  e Romênia

    Existe também a possibilidade de a vitória da ruas inspirar a população argelina, vizinha, também descontente com o governo. A revolta tunisiana lembra a iraniana contra o Xá, revolta frustrada que levou ao fundamentalismo religioso. Mesmo sendo o mais liberal dos países árabes, essa hipótese teocrática pode ocorrer na Tunísia, se não for rapidamente restituída a liberdade aos partidos da oposição, aos jornais e ao povo, com a preparação de uma agênda para eleições livres.

    A queda de Ben Ali, lembra igualmente o fim do ditador Nicolau Ceausescu na Romênia. Talvez Ben Ali tenha sentido o perigo de ser também morto como Ceausescu, preferindo fugir o país ao perceber ser impossível restabelecer a ordem e a calma, na Tunísia, sem um massacre.

    A ditadura de Ben Ali gozava do apoio da França neocolonialista, que ainda há uma semana, oferecia a Ben Ali sua experiência em termos de contenção de desordens públicas. Entretanto, tão logo se anunciou a fuga de Ben Ali, o governo francês anunciou não ser desejada sua presença como exilado, talvez devido à presença, na França, de uma enorme população imigrante tunisiana e dos líderes da oposição a Ben Ali.

    Diante disso, Ben Ali teria preferido se exilar no Qatar, onde já estava sua esposa Leila, considerada pela oposição como uma das grandes responsáveis pela corrupção que favorecia seus familiares.

(Rui Martins*/Especial para BR Press)