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CIDADÃO 2.0 - Política e políticos na sociedade digital
Sex, 29 de Janeiro de 2010 22:53
Normann Kalmus*/Especial para BR Press



(São Paulo, BR Press) - Acho graça quando ouço ainda hoje algumas pessoas defendendo veementemente aquele chavão que reza que “política [e religião] não se discute”. Religião não é o meu tema, mas costuma ter dogmas aos quais as pessoas podem se alinhar ou não. Fim de papo.
Já a política, é exatamente o contrário. É especificamente a discussão que promove o surgimento de novas idéias.



    O problema é que no Brasil nos acostumamos a associar política com aqueles que elegemos, como algo “sujo” ou “imoral”. Estamos iniciando um ano de extrema importância nesse campo. Um ano no qual vamos inaugurar uma nova forma de fazer política, utilizando os recursos da internet e não mais ficar com aquela cara aparvalhada diante da TV, ouvindo as patacoadas de dezenas de palhaços que buscam seus quinze minutos de fama.



O Cidadão 2.0 não pode alegar falta de informação ou subsídio para decidir-se nem, tampouco, esquivar-se dessa discussão. Temas relevantes não nos faltarão.



Um pouco de história



“Política” é uma palavra derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), ou seja, as atividades relativas à “pólis” (cidade-Estado). Político, portanto, é aquele que trabalha em função do Estado, que é formado pelo conjunto dos cidadãos.



E como o político atinge essa condição? Simples, através de um mecanismo que lhe outorga a representação da sociedade – no caso das democracias, o voto. É o “mandatário” ou “procurador". Ora, o procurador, embora aja “em nome de um terceiro”, o faz defendendo os interesses do representado e não o seu próprio em detrimento do outro.



Não é cheque em branco



A procuração, no caso o mandato, tem um fim específico, que é o interesse do Estado.
Dessa forma, nossos representantes eleitos não têm em absoluto, a possibilidade de dizer que não se importam com a opinião pública. Ninguém, ao votar em um candidato, outorga-lhe o direito de utilizar-se de suas prerrogativas para negociar em proveito próprio.



    Nessa categoria de “proveito próprio”, enquadram-se a construção de castelos, peças íntimas (como meias e cuecas) com recheios sui-generis, polpudas verbas para aquisição de panetones e outros exemplos da nossa história recente.



    Aliás, como nossa memória é meio curta, recomendo uma visita ao excelente MuCo – Museu da Corrupção (http://www.dcomercio.com.br/muco/). Temos de aprender a assumir a responsabilidade por ter indicado como procurador alguém que tem um perfil pouco recomendável.



Ferramentas da web



    Os meios políticos estão fervilhando. Milhares de assessores estão ocupados em povoar o Twitter de eleitos e candidatos.
Existem os exemplos mais estapafúrdios, como o de um senador que faz questão de mostrar sua proximidade com o eleitor perguntando “Onde está Wally”? ou o de um deputado que conseguiu postar 1.300 tweets em uma semana e achou que estava abafando.


    Claro que existem também os bons exemplos, de gente que realmente está buscando utilizar a internet e as ferramentas de redes sociais virtuais como forma de contatar o cidadão, apresentar-se e principalmente, ouvir.



    Ao cidadão cabe conectar-se desde já para depois não ficar a reboque, queixando-se da falta de informação. O argumento falso de que a internet é elitista, já não cabe no Brasil. As últimas pesquisas demonstraram que praticamente metade dos acessos à rede é feito a partir de lan-houses, bibliotecas ou pontos de acesso público.



Poder do coletivo



    A rede mundial de computadores possibilitou o desenvolvimento de outro conceito antigo, aquele que diz que “duas cabeças pensam melhor do que uma”. No mundo virtual, não falamos de duas, mas de milhares de cabeças simultaneamente pensando e discutindo o mesmo tema, sob os mais variados ângulos.



    A isso se dá o nome de “crowdsourcing” ou, numa tradução livre, “pesquisa da multidão”.  Nessa proposta, admite-se que o universo dos usuários desenvolve respostas mais adequadas do que especialistas isolados. Mais que isso, pressupõe que esse conjunto seja capaz de se autocorrigir e aperfeiçoar.



    As ferramentas que se utilizam desse conceito no campo da política e da administração pública são variadas e não se restringem ao Brasil. A idéia básica é a de oferecer ao cidadão o poder de se comunicar em um grupo mais amplo do que seria possível sem a internet e encaminhar suas demandas ao representante político para que ele busque os meios de atendê-las.



    Sei que parece um sonho distante, mas se pensarmos que a videochamada era coisa de ficção científica e desenho animado há cinco anos, que utilizamos celulares há pouco mais de dez e que há vinte não existia a internet no Brasil, veremos que as mudanças são muito mais rápidas do que poderíamos imaginar.



    Agora deixe de dizer que política é coisa suja ou que o político “x” rouba, mas faz. Assuma seu compromisso de Cidadão 2.0 e comece a se interessar mais por política do que pelas fofocas do último reality show.



(*) Normann Kalmus, economista, especialista em Gestão do Conhecimento e Educação Ambiental, mantém o blog Pensando Eco-Eco (normannkalmus.com.br/blog), é membro da International Society for Ecological Economics (ISEE) e assina na BR Press esta coluna sobre a web e o consumidor 2.0, fruto do efeito da revolução digital nas relações corporativas. Fale com ele pelo e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ou pelo Blog do Leitor.